Feliz é bom

Par spyvia | Le 06 dé 2006 à 09:38 | Général | (Lu 281 fois)

 

Está frio e é de noite. Ou é de noite e está frio? Não sei saber qual deles é que veio primeiro, se o frio que entrou por dentro das camisolas ou a noite que há muito me ensombra os pensamentos e acções. Sei que é de noite e está frio e a rua mostra um alcatrão mais escuro, o escuro da água que caiu do céu mas já não cai. Está cada vez mais frio e uma mancha de gasolina mistura-se numa poça de água e transforma-se em muitas cores, em todas as cores.

De dentro de um restaurante sai um casal, vêem em silêncio, ele vem um pouco mais à frente que ela. São pessoas que se misturam no meio das outras pessoas, são aqueles a quem chamamos outros, que não sabemos distinguir dos demais. Não que não tenham a sua individualidade, mas porque como são eles também poderiam ter sido outros. Mas naquele momento, todos os outros são eles.
Ela lança os braços na cintura dele e dá-lhe um beijo no pescoço. E o casal sisudo, saído do restaurante, que podia ser qualquer outro mas é aquele ganha uma individualidade, ganha um sentido de vida e amor. Riem-se e ela morde-lhe uma orelha, continuam a rir-se em direcção ao carro; comunicam apenas com gestos e olhares, olhares de carinho e amor. Entram no carro,

(Há algo neste quadro que as palavras não conseguem captar, há um contexto frio de noite, de chuva e de ruas vazias e um casal, que não é outro, mas que só podia ser aquele, agora, vive uma paixão de adolescentes. Há alguém que os vê e apreende tudo, quase até o sabor do beijo que trocaram, o cheiro do perfume dela, as imperfeições da idade que se tornaram perfeitas. É tudo, tudo, tudo, tudo. Mas é deles, não meu, eu apenas vi. E registei, invejei.)

fecham as portas mas a luz lá dentro continua acesa, demora ainda algum tempo a apagar-se, nem se dão conta que alguém os observa, directamente, em frente, quase como um voyeur emocional que se apropria de tudo o que se passa à volta para seu próprio prazer. Nessa altura lançam-se nos lábios um do outro, sem querer saber se há alguma luz acesa. Lançam-se de boca semi-aberta, com a língua tocar a língua e com os cheiros a misturarem-se. A luz apaga-se e ele põe o carro a trabalhar. Liga as luzes que incidem em mim, com a violência de um palco, com uma exposição forçada que não queria. Ponho a mão à frente dos olhos, para me proteger da luz.
O carro arranca e pára num semáforo logo a seguir. Ela encosta a cabeça ao seu ombro. E vão assim, felizes.
Feliz é bom.

 

Você

Par spyvia | Le 05 dé 2006 à 14:25 | Général | (Lu 286 fois)

 

Você...
que tanto tempo faz
Você que eu não conheço mais
Você que um dia eu amei demais...

Você que ontem me sofucou
de amor de felicidade;
hoje me sufoca
de saudade...

Você que já não diz pra mim
as coisas que eu preciso ouvir,
Você que até hoje eu
não esqueci...

Você que eu tento me enganar,
dizendo que tudo passou;
na realidade aqui em mim
você ficou...

Você que eu não encontro mais,
os beijos que já não lhe dou;
fui tanto pra você
e hoje nada sou...

de Maria Bethania "Você"... uma das musicas mais lindas de sempre... a dor... a perda... tudo presente em cada silaba da melodia desta mulher fabulosa... há poucas musicas tão repletas de poesia como esta...

 

Especiais

Par spyvia | Le 05 dé 2006 à 10:11 | Général | (Lu 262 fois)

 

Uma vez, quando tinha catorze anos disse a uma pessoa amiga,
“Há pessoas que são especiais e outras que não, que não interessam para nada. Nós os dois somos especiais”
e continuei numa grande dissertação sobre o destino como entidade reguladora com sentido de humor e com afinidades muito grandes com a lei de Murphy; e isto envolvia uma bola de vólei e um cesto de basquete, uma vez à noite no pátio da escola. Ela ria-se de mim e do meu entusiasmo: estávamos apaixonados. Fomo-nos apaixonando ao longo dos anos e esse amor aos meus catorze anos era tão romântico como um romance do Júlio Dinis. Muito, muito dramático. Muito, muito romântico. Ela ria-se de mim e de eu achar que éramos especiais, ria-se da situação. Ela sempre se riu de mim. Se nos tivéssemos envolvido teria sido como o livro O Paciente Inglês, em que ela lhe batia, mordia e arrancava cabelos.
Lembro-me também de ter nomeado mais umas quantas pessoas que considerava serem especiais. Acho que o critério principal era conhecerem-ME. De facto, a única pessoa especial era eu. Os que não eram especiais eram os tais fracos que a história nunca conta. Queria ser especial porque a mediania me assusta. A própria palavra está muito próxima de mediocridade.
Os anos passaram e intermitentemente essa rapariga e eu fomo-nos encontrando. Passaram, entretanto, quase vinte anos desde que isso aconteceu. (Uma coisa é certa, já não sou especial – e o já está a mais porque nunca fui. Talvez seja para os meus pais, como as minhas irmãs são, mas eles não contam. Eles iam gostar sempre de nós.)
Então vinte anos e muitas intermitências depois, recordo essa noite. E recordo também algo que me aconteceu, sete meses depois dessa noite. Ensinaram-me que todos somos especiais e únicos. E somos. Nem que seja porque não há dois seres humanos iguais. Não há nada igual. Isso faz com que todas as pessoas sejam especiais.
Se me tivessem dito isto aos catorze anos eu teria anuído, mas teria respondido que as pessoas especiais são aquelas que estão destinadas a algo. Aquilo que uma pessoa atinge e alcança depende unicamente do esforço empreendido. Há uma espécie de relação directamente proporcional entre o esforço sincero e aquilo que se alcança.

Só acredito que sou especial em circunstâncias igualmente especiais. Quando entro num avião, no metro em Londres, Paris, olho para as pessoas à minha volta e penso que hoje não é o dia destas pessoas morrerem. E eu entre elas. E sossego o espírito.

(E contrariamente a tudo o que acima escrevi, há pessoas que são mesmo especiais. Não só são especiais para nós como também são especiais universalmente.)

 

Falsas imagens de nós mesmos

Par spyvia | Le 04 dé 2006 à 13:13 | Général | (Lu 248 fois)

 

Por incrível que pareça, onde o ser humanos mais frequentemente erra é na avaliação de si mesmo. Estando o objecto de análise disponível 24 horas por dia, nem tempo nem disponibilidade faltam para fazer avaliações mais correctas. Pensemos nas avaliações demasiado optimistas. O erro está em nos acharmos lúcidos e que temos o domínio das situações. Ora a sensação de lucidez é um tremendo disparate, porque o aproximar à verdade faz-se no meio da dúvida e sempre com humildade. Quem se acha lúcido apenas goza a excitação de ver os seus dogmas reforçados.

A ilusão do controlo é talvez ainda mais nefasta. O dependente de drogas, o maníaco ao volante, o casal em conflito, o aluno que se deixa atrasar, todos eles sentem que têm um grande domínio da situação. Quanto maior é o risco, a verve que daí advém provoca a ilusão do o controlo ser maior que nunca. Daí ao desespero há uma distância imensurávelmente curta. Com o envelhecer, as pessoas vão aprendendo aos poucos os enganos presentes nestas situações bem catalogadas. Esta aprendizagem, de evitar os erros mais comuns, é chamada de amadurecimento. Mais um erro de avaliação, porque o fundamental não foi abalado e o indivíduo continua a ter a ilusão do controlo, no trabalho, com os filhos, colegas e amigos, onde não se apercebe da deterioração das situações, também ajudado pela hipocrisia reinante que evita confrontos e lhe dá a sensação de que está tudo bem.

Por outro lado, há as avaliações demasiado negativas. As pessoas acreditam pouco no seu potencial. Ou pensam que não nasceram para determinados voos ou então que são demasiado velhos ou ainda que nunca terão as condições necessárias. Então, se as pessoas tivessem todas as mesmas condições e começassem a ser “preparadas” na mesma idade, iriam ser todas geniais? Claramente não, a realidade não se coaduna com as nossas fantasias igualitaristas e pode ser bem cruel. Muitos jovens hoje em dia não percebem isso e querem que alguém lhes reconheça o talento que eles, inegavelmente, não possuem. Mas penso que para a maior parte de nós a ilusão é no sentido contrário. Não, não podemos ser geniais em tudo e talvez nem sequer muito bons em alguma coisa. Ainda assim, a maior parte das pessoas tem o seu potencial subaproveitado.

Outro erro de avaliação diz respeito àquilo que os indivíduos conseguem aguentar. A sensação de não poder mais, de que isso está para além dos “meus” limites, são o pão-nosso de cada dia. Mas que sentido tem falar de limites quando os ultrapassamos já vezes sem conta? O limite não tem a ver com a realidade, é apenas uma noção no momento ditada pelo desejável ou pelo sofrimento. Mas quando parar não é uma opção (na guerra, os pais que cuidam o bebé, o trabalho importante que não se pode parar) os indivíduos ultrapassam o “limite” e continuam num torpor, à espera de caírem para o lado a qualquer momento, mas não raras vezes, em vez do desfalecimento aparece é uma energia formidável que nos leva para outro plano.

Isto é dito depois de ter uma grande conversa com uma amiga "virtual" sur MSN. Foi esta manhã.

 

Uma fotografia N° 9

Par spyvia | Le 04 dé 2006 à 10:21 | Général | (Lu 262 fois)

 

Há imagens que têm um efeito agradável e positivo em nós. Quantas vezes, sem darmos por isso, procuramos um dado percurso porque há nessa passagem algo que nos põe bem dispostos?! Como que somos impelidos a ir por ali... Somos seres que buscamos o que nos conforta. Nunca nos conformamos com a adversidade.

 

Tratado de criatividade e ideias

Par spyvia | Le 04 dé 2006 à 10:18 | Général | (Lu 346 fois)

 

Disseram-me, várias vezes, que não me faltavam ideias. Faltava-me método. É isso também que distingue um artista de um amador. Todas as pessoas têm ideias, piores ou melhores, mas têm ideias: literárias, musicais, imagéticas – paradas ou em movimento. A capacidade de as pôr em prática, de enveredar por um processo, com método, é algo que não está ao alcance de qualquer um. Porque dá trabalho.
Em várias discussões, sempre defendi que qualquer trabalho artístico residia mais no trabalho, no empenho – entenda-se, no processo – do que na criatividade, na inspiração. Porque a ideia a partir da qual se parte, raramente chega intacta ao final do processo. E poucos resíduos tem.

Nesta altura, após o primeiro bloco de texto, com dois parágrafos e cento e nove palavras, já percebi que esta entrada só será concretizada com muito trabalho, sem criatividade, pouco carnal e visceral, pouco de dentro e pouco da pele, para vir directamente da cabeça, do meu instrumento de racionalidade.
Escrevo furiosamente, ou faço uma lista de palavras difíceis de que gosto e tento ligá-las com linhas, como os jogos de crianças em que se tem que unir os pontos
Ou então recorro a mecanismos que sei que resultam, habitualmente intertextualidades, os meus preferidos. Mas dizem-me e escrevem-me a dizer que estou a perder a carnalidade ou a visceralidade, apesar de começar a pensar que até sem ideias consigo escrever três mil caracteres minimamente aceitáveis. Isto bem escondido e encapotado na minha muito fantasiosa consciência.
Contra tudo o que já foi escrito nesta entrada, aceito e assumo que escrevo com o corpo, que em dúvida, a melhor escrita é aquela que me sai da pele, dos sentidos, de todos. Metaforicamente, como gosto de dizer, “Não sejas tão literal.” Gosto da expressão “escrever com o corpo”, é extremamente sensorial e sensual. Isto até pode ser uma enorme contradição, eu não agir, criativamente, em conformidade com aquilo que defendo. Para não ser contradição, há um serão e uma manhã que estou sentado, a escrever sobre escrever, a meta-escrever, a esforçar-me para um dia poder dizer, sem vergonha, que sou escritor.

Nãos bolsos das minhas calças há papeis à quatro dobrados em quatro com ideias que surgem em qualquer lugar. As melhores ideias que tenho surgem sempre antes de dormir, naquela fase em que não percebemos onde estamos. As soluções para os grandes problemas no autocarro, na banheira, a conduzir à noite numa auto-estrada vazia. E encho papeis e papeis que se dobram e desdobram em post-it colados à volta do ecrã do computador.
As ideias surgem porque o nosso cérebro funciona, mesmo quando julgamos que está em descanso. Não me importo de ter ideias onde quer que seja, não interessa o lugar nem a situação. Desde que tenha um papel à quatro dobrado em quatro. Mas não confio, e por isso, contabilizado, demorai quase cinco horas a escrever esta entrada.

(Um amigo meu, uma vez, pintou um frigorífico com o corpo. Foi literal.)

 

 

Uma fotografia N° 8

Par spyvia | Le 30 nov 2006 à 09:28 | Général | (Lu 270 fois)

 

A utopia, porque inacessível, pode levar-nos à desistência. Não, não estou a dizer para que abandonemos projectos, para que nos conformemos com a realidade (estupidamente verdadeira!). Nada disso! Prossiga-se com o sonho, mas com os pés bem assentes na terra! Pequenas vitórias são sempre melhores que a estagnação que nos desespera.

 

A tendência do fado

Par spyvia | Le 30 nov 2006 à 09:19 | Général | (Lu 354 fois)

 

Uma vez tentei ler mais do que um livro ao mesmo tempo, que era como ver televisão mudava-se de canal
(zapping)
e já estávamos noutra. Não consegui e achei que era parvo. Hoje estou a ler três livros ao mesmo tempo
(ou serão mais)
(ou serão menos)
(e porquê isso agora, tantos floreados para chegar aonde quero chegar)
e continuo com a mesma inteligência que tinha quando tentei ler dois livros ao mesmo tempo e não consegui. Talvez menos ainda, porque sim
(sem justificações.)
Mas como não é isso sobre o que quero escrever não escrevo mais sobre isso e pulo rapidamente para o que quero dizer, evitando uma extensa introdução cheia de parênteses que copiei de um livro que estou a ler e dentro dos quais me sinto confortável
(eu).
E ainda acho que sou meio parvo, mas outras coisas mudaram. ? Não interessa
(já disse.)

Tive o Verão inteiro
(a passar frio e a fazer amor o que não me deixava ter tanto frio quanto isso)
para descobrir que nunca poderia só escrever como ambicionei. Pior que isso tudo foi ter chegado a meados
(quase fins)
de Novembro para o conseguir compreender. Foi através de uma conversa de café depois de almoço, antes de ir trabalhar
(era o segundo dia de trabalho e eu já pensava que me iria despedir
eventualmente)
, em que tinham pago o almoço e agora
(no momento, se não fica anacrónico)
me tinham acabado de pagar o café e ofereciam um cigarro Gigante,
Gosto do Paul Giamatti
(o gajo gordo e barbudo)
como actor; fui ver o Lady of the Water, Eu também gosto dele
(repliquei)
especilamente no American Splendor, Eu também gostei muito desse.
Fiquei a pensar no Harvey Pekar e num diálogo do filme,
(que por acaso não sei, apenas a paráfrase já com a minha tradução,
- Tu precisas de trabalhar, porque é daí que tiras as ideias para escrever. Mesmo que o dinheiro não te faça falta, precisas de trabalhar. É por isso que nunca deixaste blá blá blá.)
e cruzei estes dados com algo que tinha lido sobre os Carlos Paredes: ao longo da sua vida nunca deixou de trabalhar onde quer que fosse
(mas sei que era para o estado, porque)
assumiu-se sempre como um funcionário público e não como guitarrista/compositor. Porquê? Porque se tiver que explicar o resto estou a insultar a inteligência de quem estiver a ler.
É a minha tendência para o fado e banda desenhada. A necessidade de me embebedar com a vida dos outros
(agora vou ser directo e falar sem adjectivos e metáforas)
para poder escrever. Senão caio na flânerie baudelairiana e não faço nada e
(sou um anónimo na multidão que se afasta à minha passagem e conheço as ruas e depois do
- Bom dia
- Boa tarde
- Boa noite)
sou eu vazio. E por isso nunca serei um escritor a tempo inteiro,
«Aceitam part-times?»

 

Ler poesia – segundo tratado de criatividade e ideias

Par spyvia | Le 29 nov 2006 à 09:27 | Général | (Lu 374 fois)

 

Não sei ler poesia. Por muito que gostasse ou que seja uma actividade profundamente romântica não o sei fazer, nunca soube. Talvez uma ou outra coisa, algo que seja do conhecimento geral. Mas poesia que seja digna desse nome, nunca fui capaz.
O que é poesia?
Palavras e versos e estrofes e opus, epopeias, sonetos quadras, dísticos heróicos e que mais? Mas não é só isto, isto é a técnica, como manejar um pincel ou um cinzel ou uma rebarbadora ou uma régua, um esquadro ou um compasso de música numa pauta. Técnica. Ir buscar exemplos de pintura ou escultura seria sempre cair na tela ou na pedra, sem respeito pelos materiais, sem considerar a evolução modernista e pós-modernista.
Ao olhar para um poema, não consigo ter a mesma experiência sensitiva que tenho quando olho para outro qualquer sistema sígnico artístico, as palavras remetem para um universo que não sou capaz de penetrar com a mesma facilidade. Seja porque razão for, não sou capaz de ler poesia. Reconheço a beleza e a inteligência do processo de autores quando mos explicam. Mas não sou capaz de fazer esse exercício: fará de mim um mau académico não compreender, não conseguir des-cobrir as intertextualidades presentes naquilo que será sempre muito óbvio para um espírito treinado.

Há alguns anos atrás, quando comecei a escrever mais a sério, atirei-me à poesia. Escrever um livro era uma maratona demasiado longa para os meus pulmões de fumador e nunca tinha nenhuma ideia interessante. A poesia era mais fácil: juntavam-se palavras com desgostos de amor e ideias parvas de suicídio e lá se compuseram mais de cem poemas miseráveis em três anos (nos quais não se inclui a entrada anterior). Quando olho para trás e releio algumas das coisas que compus, até acho que algumas são boas, mas nunca poderão ser consideradas poesia; e porquê? Porque não foram compostas, porque foram escritas como um amador, como alguém que atira palavras ao ar, alguém que não tem a precisão de um atirador de facas. E deixei de escrever poemas.

Manuel Gusmão. Reformou-se. Não que tenha compreendido sempre o que ele pretendia dizer, mais, acho que ele me compreendia melhor do que eu gostaria, assim como compreendia Rimbaud, Baudelaire e Victor Hugo. Lia esses poetas como quem bebe água, com a maior naturalidade e com a maior facilidade; da mesma forma com que falava de Godard, modernismo e Dalí. Para se poder ler poesia tinha que se ler como o Manuel Gusmão, ou então não vale a pena ler. Eu não sei ler.
Por isso os meus poemas não são poemas, porque não e podem ler através das palavras, porque são ocos, são ampolas vazias.
Acabei sempre por escolher o caminho mais fácil, o do romance e de alguns contos para os quais tenho ideias sem confiar na inspiração, musa maldita dos amadores.

 

 

O meu Outono interior

Par spyvia | Le 27 nov 2006 à 14:00 | Général | (Lu 333 fois)

 

Oh, pedaço de mim/Oh, metade afastada de mim/Leva o teu olhar/Que a saudade é o pior tormento/É pior do que o esquecimento/É pior do que se entrevar/Oh, pedaço de mim/Oh, metade exilada de mim/Leva os teus sinais/Que a saudade dói como um barco/Que aos poucos descreve um arco/E evita atracar no cais/Oh, pedaço de mim/Oh, metade arrancada de mim/Leva o vulto teu/Que a saudade é o revés de um parto/A saudade é arrumar o quarto/Do filho que já morreu/Oh, pedaço de mim/Oh, metade amputada de mim/Leva o que há de ti/Que a saudade dói latejada/É assim como uma fisgada/No membro que já perdi/Oh, pedaço de mim/Oh, metade adorada de mim/Lava os olhos meus/Que a saudade é o pior castigo/E eu não quero levar comigo/A mortalha do amor/Adeus – Chico Buarque

Quando olho para esta letra, que quase soa a poema, que o Chico escreveu, sinto que não preciso de mais palavras. Mas às vezes temos que fazer da nossa fraqueza força e empurrar as lágrimas para dentro. O meu Outono começou quinze dias depois. Não foi duas semanas depois, quinze dias. Com cada hora e cada minuto. Foi a desfolhada que caiu com o vento da noite anterior para a manhã de hoje. Acordar com a janela aberta quando me lembrava de a ter fechado. Mas interessa isso para quê? Interessa que o Outono realmente começou. Regressava no carro e dizia ao V. e à M.V. que o Outono é um período de renovação, que é uma boa altura para trocar de pele, para começar coisas novas. Física, biológica e espiritualmente. Depressa a conversa resvalou para o que as pessoas gostam e não gostam nas determinadas estações do ano. Mas interessa mesmo? Não, claro que não.

Não me alongo nem me estendo, na cama ou nas palavras. Tenho sono e estou cansado, tenho sentidos e sentimentos mas não os consigo escrever. Faço-o pelas palavras e música de outros, melhor forma que consegui, até agora, para me expressar. Talvez se soubesse tocar um instrumento, se soubesse manejar as minhas mãos, que não fosse apenas para carregar uns botões num rectângulo à minha frente. Fica para uma próxima vez, daqui a um dia ou dois, quando achar que o Outono é uma coisa boa e quando já tiver feito as pazes com as folhas castanhas dos plátanos que não foram cortados no largo em frente à minha casa. Até lá fica a canção do Chico a ressoar na minha cabeça e por mais que tente que ela não esteja, está. E talvez nem eu queira que se vá. Fica assim, triste. Vá, não custou muito, já está.

 

Uma fotografia N° 7

Par spyvia | Le 27 nov 2006 à 09:41 | Général | (Lu 369 fois)

 

A arte não é mais que um dos modos de entendermos a vida. Tal como nela, o bastante é a sugestão, aquilo que se intui de certo acto. Não o que se quiz transmitir, mas o que o destinatário apreendeu. A vida não precisa de ser explicada, mas necessita ser percebida... para isso é bom que a tornemos simples!

 

A Matança do Porco

Par spyvia | Le 24 nov 2006 à 09:58 | Général | (Lu 519 fois)

Hoije bou cuntar a bocemecês a história do talego cheio de coidas de pão, uma históira berídica que se passou entre os Batutes e a Fonte da Baca num dia de nabueiro de 1968, em plena crise do Meio-bidom.

O Jequim Tição era assim conhecido por ser o único home do reino caramelo com licença de uso e porte de isqueiro e com alvará de acendedor oficial de meios-bidons. Por isso era sempre chamado pró serbiço onde quer que houbesse um pitromax, um fogareiro ou um cigarro pra acinder, quando não habia fórfos. Num belo dia foi chamado pró serbiço especial de acendedor de rastolho numa matança do porco. Esse rastolho em labaredas, espatado numa forquilha, serbia pra chamuscar o bicho, já morto, pois nessa altura era assim que queimava o pêlo dando aquele chirinho a chamusque c’agente tanto gosta impregnado nas nossas camisolas interiores. Hoije usam-se maçaricos ligados à bilha do gás da cozinha e já na tem o mesmo infeite. Bem…, lá ia o Jequim Tição, com os chispes na geada, estrada fora, assobiando par dentro do nabueiro quando introu no batatal do Baldemiro Pirolito (assim chamado por beber pirolitos e ter forrado a fachada a sua casa com os berlindes dessa bebida gasosa). Baldemiro assustou-se assim que viu o vulto, deu um arrote e um tiro de caçadeira pró ar, e disse:


- Quem és tu e que o que é bieste práqui chirar?
- Sou eu, o Jaquim Tição, e bou à matança do porco do Belarmino Pançudo.
- Ahh! És o Tição,… Atão acende lá a mim esta lamparina que eu na tenho fórfos.
- Tu tamém na tens fórfos?
- Nem um fórfozinho bê lá tu!
Meteu o talego no poial, tirou o isqueiro da algibeira do colete e zás pôs-se a acinder a lamparina. A canzoada deu-lhe o cheiro do farnel e truca, roeu-lhe o pão cum banha deixando só a coida.

 

Quando chigou à matança do porco é que reparou que tinha o talego só com coidas. Foi uma barrigada de rir que toda a gente ficou a saber do sucedido. Jaquim Tição quase teve pra mudar de alcunha pra Jaquim Tição das Coidas… mas não pegou. Bem… resultado: como ele só tinha as coidas, toda a gente lhe ofereceu ovos caseiros, repolhos, hortaliças, e fartou-se de comer coirato e intarmiadas, e buer binho até à noitinha. Portanto, aquele belho ditado “Pá fome na há má pão” neste caso até quase se berifica poque o Jaquim incheu a pança de coirato.


Deribado a esta históira berídica é que ainda hoije os caramelos modernos quando comem pão cum Tulicreme deixam as coidas em cima da mensa como sinal de esperança de birem a ganhar uma barrigada de coirato, intarmiada e binho.
Prá semana, no próximo editorial, bou cuntar uma históira ca nha tia cuntava quando eu era ainda gaiata, uma históira dum cogumelo labado cum áuga do poço. GROIIIIIINNNN, GROIIIIIIIIIINNNN......


 

 

Sempre...para sempre

Par spyvia | Le 23 nov 2006 à 14:17 | Général | (Lu 332 fois)

 

Há amor amigo
Amor rebelde
Amor antigo
Amor de pele

Há amor tão longe
Amor distante
Amor de olhos
Amor de Amante

Há amor de Inverno
Amor de verão
Amor que rouba
Como um ladrão

Há amor passageiro
Amor não amado
Amor que aparece
Amor descartado

Há amor despido
Amor ausente
Amor de corpo
E sangue bem quente

Há amor adulto
Amor pensado
Amor sem insulto
Mas nunca tocado

Há amor secreto
De cheiro intenso
Amor tão próximo
Amor de incenso

Há amor que mata
Amor que mente
Amor que nada mas nada
Te faz contente me faz contente

Há amor tão fraco
Amor não assumido
Amor de quarto
Que faz sentido

Há amor eterno
Sem nunca talvez
Amor tão certo
Que acaba de vez

Há amor de certezas
Que não trará dor
Amor que afinal
É amor sem amor

O amor é tudo isto
E nada disto
Para tanta gente
É acabar um amor igual
E começar um amor diferente
Sempre...para sempre

 

Descobre as Diferenças

Par spyvia | Le 23 nov 2006 à 09:37 | Général | (Lu 315 fois)

 

"Todos nós temos direito à diferença."


Parece cliché dizer isto... mas não o é!!! Deveria ser encarado como uma verdade inegável... mas não o é!!
Por defeito, a sociedade elaborou um "padrão normal" de como deve ser uma pessoa... Só que... cada um de nós é único, e as diferenças que apresentamos em relação a esse "padrão normal" podem causar alguma "repugnância" (desculpem a expressão) por parte de outros... a isso chamamos... Preconceito!!!
Racismo, Xenofobia e exclusão social... são algumas das formas de preconceito.

E é sobre preconceito que falamos hoje.
-Já foram vítimas de preconceitos estúpidos e que não cabem na cabeça de ninguém???
-Qual o vosso maior Preconceito???? (e não se refiram só a pessoas)
-Sentem-se ou alguma vez se sentiram olhados de forma diferente pelas outras pessoas???

 

God Bless America (the book)

Par spyvia | Le 20 nov 2006 à 13:41 | Général | (Lu 297 fois)

 

Parece-me bárbaro e extremamente egoísta não partilhar com vocês uma das mais fantásticas frases que ouvi nos últimos tempos fruto da minha leitura deste livro, sobre o qual Carlos Pinto Coelho terá dito, "delicioso livro, livro de papel, papel árvores, árvores do pau, pau de Cabinda, Cabinda África, África prostitutas menores, prostitutas sexo com virgens não engravida, vida madrasta, madrasta basta, basta com esta citação que eu nunca disse e que algum deficiente achou que ia ficar engraçadote no seu blog estúpido que ninguém lê".

Isto não correu bem como eu esperava, mas ainda assim aqui fica a quote, wait for it, wait for it...


- If "con" is the opposite of "pro", then isn't congress the opposite of progress, or did we just fucking blow your mind?"

 

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